Comercialización de parasitoides en Brasil

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Aspectos regulatórios e a comercialização de inimigos naturais no Brasil*

  • Publicado en: Memorias Sociedad Colombiana de Entomología (Socolen) XXXVII Congreso, Bogotá, Colombia, junio 30, julio 2, 2010.


Regulatory aspects in the commercialization of natural enemies in Brazil

Danilo Scacalossi Pedrazzoli
Engenheiro Agrônomo, Diretor BUG Agentes Biológicos LTDA (Caixa Postal 49, CEP 15910-000, Monte Alto-SP,
Brasil), scacalossidanilo@gmail.com.

Introducao
O mercado de controle biológico no Brasil e no mundo vem aumentando significantemente a cada
ano. Em alguns países, como a Espanha, o aumento foi explosivo devido a aspectos regulatórios,
onde novas leis impuseram menores limites de resíduos nos alimentos, fazendo com que o controle
biológico se tornasse uma das únicas saídas no controle das pragas. De uma maneira geral, o
aumento do controle biológico se deve ao fato da procura de métodos menos agressivos no
controle de pragas (menos resíduos), maior consciência ou quebra de barreiras culturais
(tecnificação dos produtores), aumento da área de orgânicos e principalmente pela eficiência dos
produtos colocados no mercado. Mostraremos neste capítulo o mercado de Trichogramma no Brasil
e as leis federais que regulam sua comercialização, bem como a iniciativa inédita do setor privado
de criar uma Associação Nacional das empresas produtoras, para regular e fiscalizar os produtos
oferecidos aos agricultores.
ESPÉCIES DE Trichogramma COMERCIALIZADAS NO BRASIL
Das 28 espécies de Trichogramma relatadas no Brasil apenas algumas são produzidas
comercialmente, considerando-se sua distribuição e eficiência em várias culturas.
Comercialmente, podem ser encontradas no mercado brasileiro as espécies Trichogramma
pretiosum, T. atopovirilia e T. galloi (Tab. 1).
T. pretiosum é a espécie mais comercializada, pois suas diversas linhagens atacam uma gama muito
grande de hospedeiros.
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Tabla 1. Relação de espécies de Trichogramma comercializadas no Brasil.
As espécies brasileiras são produzidas em hospedeiros alternativos. Assim, T. pretiosum e T.
atopovirilia são produzidas em Anagasta kuehniella ou Sitotroga cerealella. A primeira espécie de
traça tem se mostrado superior em relação à S. cerealella, produzindo parasitóides de melhor
qualidade. T. galloi deve ser produzido em ovos de Corcyra cephalonica. As técnicas de criação são
adaptações daquelas relatadas em PARRA & ZUCCHI (1997).
Para cada espécie, devem existir linhagens, mantidas em coleções nas empresas, adaptadas às
diferentes condições microclimáticas e coletadas sobre hospedeiros (pragas).
ESPÉCIE CULTURA PRAGA ALVO
T. pretiosum Algodão lagarta-da-maçã (Heliothis virescens )
curuquerê (Alabama argillacea )
Tomate broca-pequena-do-fruto (Neoleucinodes elegantalis)
broca-grande-do-fruto (Helicoverpa zea)
traça-do-tomateiro (Tuta absoluta)
Crucíferas traça-das-crucíferas (Plutella xylostella)
curuquerê-da-couve (Ascia monuste orseis)
Milho lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda)
lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea)
Soja falsa-medideira (Pseudoplusia includens)
lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis)
Batata falsa-medideira (Pseudoplusia includens)
traça-da-batatinha (Phthorimaea operculella)
Citros bicho-furão-dos-citros (Gymnandrosoma aurantianum)
T. galloi cana-de-açúcar broca-da-cana (Diatraea saccharalis)
Milho broca-da-cana-de-açúcar (Diatraea saccharalis)
T. atopovirilia Milho lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda)
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A classificação taxonômica das espécies deve ser feita por especialistas. Periodicamente, estes
materiais devem ser enviados aos mesmos para verificação se não houve mistura de espécies (dado
ao diminuto tamanho do parasitóide).
Assim que forem observadas alterações na qualidade do parasitóide, introduções periódicas de
material “selvagem” (vindo do campo) devem ser realizadas, visando aumentar o vigor das
populações, pelo incremento da variabilidade genética das novas populações.
O número de liberações, intervalo entre liberações e o número de parasitóides a ser liberado por
hectare, dependerão da praga, cultura (idade, arquitetura, rentabilidade), temperatura (pois
dependendo da temperatura, a capacidade de parasitismo e a longevidade no campo são variáveis)
entre outros fatores.
Técnicas de liberação
No Brasil, as pesquisas com Trichogramma, tiveram um aumento significativo no início da década de
80, quando foram adaptadas, às nossas condições, técnicas européias de criação massal deste
parasitóide.
As pesquisas com este microimenóptero, não só em nosso país, mas em todo o mundo, visam a
avaliação da eficiência do agente biológico no controle da praga alvo, e, muitas vezes, relegando a
um segundo plano o aprimoramento de técnicas de liberação que sejam compatíveis com o
custo/benefício de uma atividade agrícola. Tais técnicas de liberação não consideram, na maioria
das vezes (por serem resultados de pesquisa) o custo e a viabilidade de utilização (especialmente
mão-de-obra) pelo usuário.
a. Liberação de pupas do parasitóide
A forma de liberação mais comum utilizada para Trichogramma é aquela feita por meio de cartelas
de papelão contendo ovos do hospedeiro, colados na sua superfície com goma arábica. Estas
cartelas após terem os ovos submetidos ao parasitismo (ficam escuros após 4-5 dias, caracterizando
o parasitismo), são colocadas sobre plantas ou penduradas em suportes (de madeira ou de ferro) no
meio da cultura. Após um certo período de tempo emergirão, das pupas colocadas no campo, os
adultos, que iniciarão um novo ciclo dentro da cultura parasitando os ovos das respectivas pragas.
Este tipo de liberação é eficiente em áreas onde a predação seja baixa e em ausência de condições
climáticas adversas (chuva, irrigação, vento etc). Quanto mais próximo da emergência estiverem os
parasitóides, maior a chance de se obter bons resultados de emergência e posterior ação do
parasitóide.
Há algumas empresas que utilizam, como proteção das cartelas, caixinhas de papelão, semelhantes
a caixas de fósforos, para a liberação de Trichogramma. Dentro destas caixinhas são colocadas as
cartelas contendo os ovos parasitados, para que seja evitada ou minimizada a ação dos predadores
e a ação do clima sobre as pupas. Este método apresenta eficiência desde que o orifício de saída dos
adultos emergidos não seja grande o suficiente para a entrada de alguns predadores vorazes, como
as formigas. É um método que demanda maior mão-de-obra, principalmente para o
acondicionamento das cartelas dentro das caixas.
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b. Liberação de adultos do parasitóide
Um outro método de liberação de Trichogramma é aquele utilizando-se adultos colocados em
frascos de vidro ou acrílico. As cartelas com pupas são colocadas dentro de recipientes
transparentes e tampados com filme plástico de PVC ou tampa rígida. Após a emergência dos
adultos, é feita uma pequena abertura na tampa do frasco e, através do caminhamento pela cultura,
os insetos são liberados. Pode-se envolver o frasco com um pano escuro, para que os insetos
(fototrópicos positivos) saiam à procura de luz, facilitando a sua dispersão; em outros casos, os
insetos são liberados por meio de pequenas batidas no fundo do frasco. Dentro do frasco, deve ser
colocado mel puro, como fonte de alimento, principalmente quando o material não vai ser liberado
no mesmo dia, para que se tenha um aumento na longevidade dos adultos e um maior parasitismo.
A Embrapa Semi-Árido de Petrolina-PE desenvolveu um sistema de liberação de Trichogramma
acoplado ao sistema de irrigação com pivô-central. Os frascos, com os insetos emergidos,
dependurados nas hastes do sistema de irrigação, que era móvel e durante a liberação funcionava
sem água, permitia que eles fossem lentamente liberados e distribuídos homogeneamente na área
no horário de temperaturas mais amenas do dia.
c. Liberação de “formas” (pupas e adultos) protegidas dos parasitóides
A forma de liberação mais segura de pupas (às vezes de idades diferentes) e adultos do parasitóide é
através de cápsulas ou cartelas protegidas (fig.1). Para áreas extensas, como por exemplo, na
cultura da cana-de-açúcar, onde são tratados muitas vezes mais de 1.000 hectares de uma só vez, a
liberação de parasitóides em recipientes protegidos, que ocupam pouco espaço, levam à maior
eficiência do método, além de economia de mão-de-obra na sua liberação e, principalmente, a não
ocorrência de predação, é a mais adequada. Várias formas de proteção de pupas ou adultos têm
sido relatadas, podendo ser confeccionadas em plástico, papelão, amido degradável ou polpamoldada
(fibras de celulose). A preocupação com a proteção do material biológico vem de longa
data, pois pesquisadores e empresas européias desenvolveram, na década de 80, sistema similar ao
que é utilizado no Brasil atualmente. Na Europa, as liberações podem ser feitas por tratores ou por
aviões.
O mais importante no sistema de liberação protegido é que além de proteger os insetos, evitando a
predação, é um sistema de fácil transporte e de fácil distribuição no campo.
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Figura 1. Modelo de cartela protegida para liberação de Trichogramma
1- Registro dos parasitóides e controle de qualidade de Trichogramma
Os insetos do gênero Trichogramma, bem como outros parasitóides, predadores e patógenos,
devem ser obrigatoriamente registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
(MAPA), sendo tais registros regulamentados pela Lei 7.802, de 11 de julho de 1989 (agrotóxicos,
seus componentes e afins).
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Em todos os programas bem conduzidos de controle biológico no mundo, os agentes benéficos
potenciais são coletados, identificados e, após uma série de estudos (Tab.2) são criados
massalmente e a tecnologia gerada, transferida ao usuário.
Tabla 2 – Etapas de um programa de Controle Biológico Aplicado com Trichogramma (PARRA et. Al.,
2002).
a) coleta, identificação e manutenção de linhagens de Trichogramma spp.;
b) seleção de um hospedeiro alternativo para criação massal do hospedeiro;
c) aspectos biológicos e comportamenteis de Trichogramma spp.;
d) dinâmica de ovos da praga visada;
e) liberação de parasitóides: número de parasitóides liberados e pontos de
liberação; época e forma de liberação;
f) seletividade de agroquímicos;
g) avaliação da eficiência;
h) modelo de simulação parasitóide/praga;
Existem estudos adicionais que devem ser feitos antes da utilização, que incluem a mudança de
escala de produção, pois numa criação de pesquisa são produzidos poucos insetos, diferentemente
de uma criação comercial (massal) em que são produzidos milhões de inimigos naturais.
Para se ter sucesso, como já comentado anteriormente, deve se ter o apoio de taxonomistas, pois
da identificação correta depende o sucesso de um programa de campo. Assim, por exemplo, para
controlar D. saccharalis deve se utilizar T. galloi; para S. frugiperda, os melhores resultados são
obtidos com T. atopovirilia. Muitas empresas comercializam Trichogramma sem ao menos saberem
com que espécie estão trabalhando (e comercializando).
A utilização de linhagens coletadas na espécie alvo e mesmo aquelas coletadas em diferentes
condições microclimáticas, para serem liberadas em áreas com as mesmas características, são
fundamentais para se ter sucesso no controle da praga visada.
Entretanto, o acompanhamento da qualidade dos insetos criados continuamente em laboratório é
fundamental para qualquer programa.
Para Trichogramma, a cada geração devem ser avaliadas cerca de 10 características biológicas
definidas pela IOBC (International Organization for Biological Control) e que foram reduzidas por
PREZOTTI (2001) para 3: capacidade de parasitismo, longevidade e capacidade de vôo. Anomalias
morfológicas (deformação de asas e de abdome) devem também ser observadas ao longo das
gerações.
Qualquer alteração nestas características, ao longo das gerações, implicará na necessidade de
introdução de populações selvagens da espécie de Trichogramma visada.
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Há cada vez mais a necessidade do acompanhamento desta qualidade, sendo necessária uma ação
conjunta entre representantes das Universidades, do Governo e das Indústrias no controle da
qualidade dos organismos produzidos nas suas diferentes etapas de produção e comercialização
(Parra et al., 2002). Ao encontro desta necessidade, foi criada em 2008 a ABCBIO (Associação
Brasileira das Empresas de Controle Biológico), para atuar como um órgão regulador e fiscalizador
independente e melhorar o nível das empresas no país, contribuindo para o aumento de qualidade
dos organismos já comercializados, além de fomentar novas pesquisas para o desenvolvimento de
novos produtos e tecnologias biológicas.
A ABCBIO atualmente possui 17 empresas associadas, de diferentes áreas dentro do controle
biológico. Foi criado um Comitê Técnico Científico com o objetivo de se desenvolver protocolos para
análise de produtos biológicos, permitindo padronização e transparência na garantia de produtos e
marcas comerciais. Este mesmo comitê tem o intuito de dar apoio técnico e científico à Associação.
Dentre as ações da ABCBIO, a mais importante para o setor no Brasil é a criação de um selo de
qualidade (“selo verde”), que permitirá aos usuários do controle biológico terem certeza da
qualidade e procedência dos produtos por eles adquiridos e ao mesmo tempo permitir que o
Governo Federal consiga identificar mais rapidamente quais produtos devem ser melhorados,
fiscalizados ou banidos do mercado, seja por baixa qualidade ou falta de regsitro.
Literatura recomendada
HASSAN, S.A. 1997. Criação da traça do milho, Sitotroga cerealella, para a produção massal de
Trichogramma, p.173-182. In J.R.P. Parra & R.A. Zucchi (eds.), Trichogramma e o controle
biológico aplicado. Piracicaba, Fealq, 324p.
PARRA, J. R. P. & R. A. ZUCCHI (ed.) 1997.Trichogramma e o controle biológico aplicado. Piracicaba:
Fealq/Fapesp, 324 p.
PARRA, J.R.P., P.S.M. BOTELHO, B. S. CORRÊA-FERREIRA & J.M.S. BENTO. (eds). 2002. Controle
Biológico no Brasil - parasitóides e predadores. Piracicaba, Ed. Manole, 609 p.
PARRA, J.R.P. 2004a. Controlando pragas com inimigos naturais. Revista Ciência hoje, p. 18-23.
PARRA, J.R.P. & R.A., ZUCCHI. 2004b. Trichogramma in Brazil: Feasibility of use after twenty years of
research. Neotropical Entomology 33 (3): 271-281.
PREZOTTI, L. 2001. Controle de qualidade de Trichogramma pretiosum Riley, 1879 (Hymenoptera:
Trichogrammatidae) em criações de laboratório. Piracicaba, Esalq, 81p. (Tese de
Doutorado)
ZUCCHI, R.A. & R.C. MONTEIRO. 1997. O gênero Trichogramma na América do Sul, p.121-150. In
J.R.P. PARRA & R.A. ZUCCHI (eds.), Trichogramma e o controle biológico aplicado.
Piracicaba, Fealq, 324p

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